I- Nascimento, magia e mitologia
Tão antiga como o Homem iniciada há mais de 400 000 anos, a história do vinho está imersa na preocupação de sobrevivência do ser humano. A primeira das suas preocupações, a alimentação, durante muitos milhares de anos, foi facilitada com a descoberta da agricultura que, por sua vez, marcou o iniciou da sedentarização do Homem, por alturas no Neolítico superior.
Semeando os primeiros grãos e esperando pela sua colheita, observando a natureza e as reacções dos animais domésticos, ao ingerirem certos frutos, o homem, ele próprio, experimentando, foi assim que, empiricamente, terá começado o conhecimento sobre esta bebida milagrosa, saída do suco, fermentado, dos frutos dessa planta, a videira, donde viria a nascer o vinho, produto apreciado desde sempre por todas as civilizações, onde chegou e encontrou clima para ser produzido.
Terá sido mesmo a videira, cujo ciclo de desenvolvimento, a partir das sementes (no início, único processo de reprodução - sexuada) até frutificar, demorava quatro anos, que influenciou grandemente a sedentarização pois, uma tribo que parasse durante quatro ou cinco anos tinha tempo para se enraizar, criar estabilidade e desenvolver mesmo algumas artefactos domésticas.
À medida que o Homem se ia identificando e desenvolvendo as suas capacidades, dependente que estava da natureza em todas as dimensões, cedo percepcionou a dimensão do sobrenatural, de algo que condicionava os fenómenos do Mundo e a sua própria existência e assim criou forma a sua espiritualidade, atribuindo uma religiosidade ao Mundo em que vivia.
Foi este o espírito que subsistiu nas civilizações Egípcias, Gregas, Romanas, com elevados níveis culturais em que elevavam as forças e os produtos da Natureza à categoria de benesses dos deuses.
Curioso que, neste clima de culturas panteístas, só um povo da antiguidade clássica - os hebreus - elevaram a sua espiritualidade à concepção de um único Deus “omnipotente e omnisciente”.
Em qualquer caso, esta sacralização do vinho aproxima-o do sangue, a essência da vida. “ Pelos efeitos que produzia no homem, acreditava-se assim que não constituía uma bebida banal, mas sim uma dádiva de um deus: Danel, na Fenícia, Osíris no Egipto, Dionísio na Grécia, e Baco em Roma”.
No monoteísmo, todos conhecemos a descrição bíblica da importância do “bom vinho” nas célebres Bodas de Canaan.
Em todas estas civilizações é notória a importância da vinha, fornecedora de saborosos e nutritivos frutos, patentes em faustas refeições e, principalmente, responsável por essa bebida eleita, dado o poder que possuía de pôr o homem em euforia e em êxtase, que o aproximava da sua concepção dos deuses e o fazia esquecer as mágoas da vida (virá daí a frase, ” beber para esquecer”?).
Muitas são as lendas que se contam e passaram de boca em boca que relatam variados episódios sobre como o Homem terá descoberto esse néctar dos deuses chamado vinho.
- Estáfilo, pastor grego, terá descoberto um dia que uma das cabras perdida do rebanho, se encontrava a comer parras (folhas de videira), colheu então os frutos dessa planta e levou-os ao seu patrão, Oinos que com os frutos fez um suco o qual, com o tempo, melhorou de sabor. Daí que videira em grego se diz staphyle e o vinho oinos.
- A mitologia romana atribui a Saturno as primeiras videiras.
- Na Península Ibérica, a videira era responsabilidade de Hércules.
- Na Pérsia conta-se que um dia o rei Djemchid se encontrava debaixo de uma tenda observando os seus archeiros e avistou uma ave lutando com uma serpente que a asfixiava. Mandou apontar e a serpente, atingida, deixou livre a ave que se aproximou do rei e largou a seus pés umas sementes das quais, após mandadas semear, nasceu um planta que deu frutos em abundância.
O rei bebia sumo dessa fruta, regularmente, até que um dia o achou amargo e mandou por de parte. Uma das suas escravas favoritas, encontrando-se com fortes de cabeça, desejou morrer e bebeu desse líquido, julgando-o venenoso. Adormeceu e eis que acordou curada e feliz, (hoje, o efeito costuma ser oposto…). Claro que o rei logo lhe chamou “Darou-é-Shad”, O remédio do rei.
Assim sendo, o descendente de Djemchid, Cambises, fundando Persépolis, logo deu ordem aos vinicultores para plantarem vinha à volta da cidade que vieram a dar o célebre vinho de Shiraz. A vinha era bem cuidada, o mosto das uvas fermentava dentro de guarabares, recipientes de 160 litros. Esse vinho é responsável pela coragem dada aos soldados de Cambises na célebre conquista do Egipto.
Não vos vou cansar com mais lendas porque, mesmo esta tem outra versão….